
PARTE 3
Obra da providência
Cientista
pesquisava células sanguíneas
no interior da tíbia de coelhos quando
percebeu que a câmara de observação feita de titânio
se fixava no osso da cobaia
Per-Ingvar Brånemark
acredita na providência e que as descobertas
acontecem quando a “Mãe Natureza”ou “alguém
acima dela”consente. Pois foi com uma
mãozinha do imprevisto que ele realizou
seu maior feito científico.
Na década de 50, quando lecionava na Universidade de Gotemburgo,
sua pesquisa versava sobre o comportamento de células sanguíneas.
Uma das questões que mais lhe chamavam a atenção
era como as células sanguíneas eram produzidos na medula óssea.
Para fazer suas investigações em tíbia de coelhos,
ele usava uma câmara de observação em titânio.
Durante estas experiências, percebeu que o instrumento permanecia
fixado ao osso dos animais.
Brånemark é homanageado
por 3.500 profissionais
|
Assim,
por acidente, o ortopedista desvendou
o fenômeno da osseointegração,
que permite a integração
do titânio ao osso como se fosse
parte de sua estrutura. O resultado
redirecionou as pesquisas do jovem
cientista. Estudantes voluntários
se ofereceram para experiências
que comprovariam a união perfeita
entre o metal e o osso. E, além
de tudo, o titânio não
causava rejeição nem
inflamações nos tecidos
vivos, como ocorriam com outros materiais.
O avanço das pesquisas e o aprimoramento do titânio
abririam terreno para uma nova possibilidade. P-I Brånemark
e equipe queriam testar o potencial da osseointegração
como técnica de ancoragem de partes do corpo humano e juntas.
O caminho mais viável apontava para os ensaios iniciais
para os implantes dentais. Testes foram feitos com cachorros. Um
cão de caça chamado Niklasteve parte da tíbia
retirada e substituída por duas barras de titânio
paralelas.
|
Três
dias após, o animal caminhava normalmente
sem demonstrar sinal aparente de desconforto.
Em um filme feito na época, é mostrado
o animal caminhando sobre as patas traseiras.
O teste da carga havia sido um sucesso. Depois,
disso, foram feitos testes com implantes
dentais nos animais. Em outro documentário
da época, o implante fixado em um
cachorro suporta um peso de 10 kg.
Gösta Larsson, então com 34 anos, havia perdido os dentes
da mandíbula e sofria com diversos outros problemas dentais, incluindo
fissura palatina. Soube da experiência de Brånemark na Universidade
de Gotemburgo e apresentou-se como voluntário para o procedimento
que mudaria a história da Odontologia mundial. Larsson recebeu
quatro implantes na mandíbula e uma prótese fixa que reabilitaram
completamente sua função mastigatória até hoje.
Apesar do futuro promissor da descoberta, P-I Brånemark quis primeiro
fundamentar uma sólida base científica, com estudos multicêntricos
e longitudinais, para a osseointegração antes de divulgá-la
amplamente para o mundo.
Em 1979, o cirurgião-dentista Torgny Haraldson descreveu uma resposta
sensorial em pacientes com próteses osseointegradas. Os indivíduos
que receberam este tipo de implante tinham a habilidade de identificar
estímulos táteis transmitidos através de suas próteses. “Pacientes
com pontes osseointegradas recuperaram um nível de capacidade
funcional do sistema mastigatório equivalente aos indivíduos
com uma dentição natural e reduzida como a do grupo de
osseointegração”. O mesmo fenômeno foi verificado
posteriormente também na área da Ortopedia.
Os resultados alcançados na Escandinávia
atiçaram a curiosidade de um eminente pesquisador da Universidade
de Toronto (Canadá), George Zarb. Ele investigava substitutos
artificiais de raízes dentais e, com uma certa dose de ceticismo,
resolveu apurar in loco os estudos do ortopedista sueco que se aventurava
no reino exclusivo dos cirurgiões-dentistas.
Depois de constatar a consistência dos dados coletados pela equipe
sueca, repetiu o protocolo com sucesso em seu próprio país.
Foi ele quem convenceu o meticuloso Brånemark a compartilhar sua
experiência com centros de outros países e organizou, em
maio de 1982, a mítica conferência sobre Osseointegração
na Clínica Odontológica em Toronto, em parceria com a Universidade
de Gotemburgo. A apresentação surpreendeu a audiência
e desde aquele evento pesquisadores e instituições de diversas
partes do globo passaram a estudar e a utilizar o protocolo de osseointegração
desenvolvido por P-I e colegas, tanto na Odontologia quanto fora dela.
|
|
Paciente
histórico
O cidadão sueco Gösta Larsson (foto) foi
o primeiro paciente no mundo a receber um implante osseointegrado,
aplicado em 1965 pelo próprio médico Per-Ingvar
Brånemark. Ele também teve seu minuto de
fama durante a Celebração Mundial dos 40
Anos de Osseointegração e foi homenageado
no dia 23 de setembro durante os trabalhos. A programação
científica foi especialmente interrompida para
uma cerimônia breve, porém singela. Mesmo
sem poder estar presente ao evento, ele recebeu uma longa
salva de palmas da platéia de congressistas. Bastante
emocionado, o professor Brånemark fez questão
de ressaltar que, passados 40 anos, seu primeiro paciente
de implante tem vida normal e saudável. Em Gotemburgo,
onde reside, Gösta Larsson ganhou um jantar oferecido
por seu benfeitor.
|
|
| |
|
O
desafio do Centrinho
 |
O setor de Implantodontia
do Centrinho foi criado no início
da década de 90 com o objetivo
de reabilitar com alto grau de
eficiência o edentulismo
total ou parcial, por meio de instalação
cirúrgica de implantes em
forma de parafuso e de titânio
puro, nos rebordos alveolares edêntulos. “Os
nossos pacientes não tinham
condições anatômicas
pra suporte e retenção
de próteses dentárias.
O implante osseointegrado
constituiu-se, então,
na grande perspectiva de tratamento
daquelas pessoas e, conseqüentemente,
na única alternativa de
melhora da qualidade de vida
delas”, relata o superintendente
do Centrinho/USP, professor José Alberto
de Souza Freitas. Hoje, o setor
de Implantodontia do Centrinho
realiza, em média, 40
implantes dentários por
mês.
|
|
Livro
registra experiência
A parceria de Brånemark com o Centrinho foi documentada
no livro “Reabilitação das Fissuras Palatinas
Complexas e Defeitos Craniofaciais –A Experiência
de Bauru”, publicado em 1999 pela editora Quintessence
Books. |
|
|
Voltar
ao índice da revista
|