SAÚDE BUCAL
A força do ar
A abrasão a ar com óxido de alumínio é usada no preparo cavitário sem causar barulho, pressão, dor ou necessidade de anestesia. Além disso, a técnica é útil para reparos estéticos

CD Lourdes dos Santos-Pinto |
Pequenas partículas de pó de óxido de alumínio misturadas ao ar comprido são disparadas em alta velocidade sobre uma superfície dental. A energia cinética resultante provoca a abrasão. Esta é a técnica do jato de ar com óxido de alumínio, usada com o objetivo de realizar cortes na superfície dental sem os inconvenientes de métodos tradicionais.
A aplicação é feita por meio de uma peça de mão, com tamanho parecido ao de uma caneta de alta rotação, dotada de um pequeno orifício na ponta ativa do aparelho, por onde saem as partículas de óxido de alumínio – único material que pode ser usado no procedimento - junto com o ar comprimido.
O aparelho de abrasão a ar foi introduzido na Odontologia em 1945 como um instrumento de corte |
do tecido dental silencioso.
No entanto, nas seis décadas seguintes, o aparato perdeu terreno para o amálgama por um capricho técnico. O amálgama é colocado em cavidades em forma de caixa para a retenção - tipo de preparo que a abrasão a ar não é capaz de fazer. Mas, com o surgimento dos materiais adesivos para restauração, como as resinas compostas, que não precisam de preparos cavitários com ângulos definidos, os aparelhos de abrasão a ar voltaram ao mercado no início dos anos 90. E com vantagens.
O jato de ar com óxido de alumínio para o preparo de cavidades não produz calor, vibração, pressão ou ruído; causa pouca ou nenhuma dor e não requer o uso da anestesia. Eliminando esses fatores que provocam desconforto e medo no paciente, a técnica acaba contribuindo para um tratamento minimamente invasivo. As restaurações feitas em cavidades preparadas desta forma seguem os mesmos procedimentos das demais.
Segundo a pós-doutorada em Odontopediatria pela Baylor College of Dentistry (EUA), Lourdes dos Santos-Pinto, além de ser indicada para o preparo cavitário conservador, a abrasão de ar é usada para a remoção ou reparo de selantes, resinas composta e cimento de ionômero de vidro, sem causar danos à superfície do dente ou aumentar a cavidade, o que geralmente acontece quando é usada a broca. A técnica também tem grande utilidade na remoção da resina remanescente na malha do bráquete para a recolagem, remoção de pigmentos e defeitos superficiais no esmalte e na dentina e também na limpeza da estrutura interna de restaurações indiretas.
Mas Lourdes também chama atenção para uma limitação no uso da abrasão a ar: não corta tecido mole. “A técnica não remove tecido cariado amolecido, portanto não é indicada para os dentes em que a lesão de cárie já está aberta”, explica. Contudo, o método é bastante útil na realização de uma abertura bem conservadora no dente, para atingir o tecido cariado a ser removido, complementa.
Acúmulo de pó

Abrasão a ar não dispensa sugador |
O uso da abrasão a ar com óxido de alumínio traz também algumas desvantagens, como a produção de pó e seu acúmulo no campo operatório, o tamanho desconfortável e o alto custo dos aparelhos usados. No entanto, Lourdes afirma que nos últimos anos, aparelhos menores, mais simples e mais baratos têm sido lançados. Os preços dos sistemas de abrasão (convertidos do valor em dólar) variam entre R$ 2,5 mil e R$ 35 mil.
A produção e o acúmulo de pó na borracha que isola o dente e também pelo ambiente são inevitáveis, mas eles podem ser minimizados,para dar mais conforto e segurança para paciente e profissional. Conforme a odontopediatra, a abrasão a ar só deve ser utilizada com o sugador próximo ao dente que está sendo tratado, para que o pó seja aspirado. O cirurgião-dentista também deve estar sempre usando máscara, gorro e óculos, pois a área em que está o operador do aparelho é sempre a mais atingida pelo pó. |
Outro cuidado que não pode ser esquecido é o isolamento absoluto do dente, com o dique de borracha que o envolve totalmente. Esse recurso evita danos aos tecidos moles próximos e também ajuda a segurar o pó produzido. Um fator essencial para o uso seguro da abrasão a ar, sem trazer prejuízos para a saúde do paciente e para o esmalte dos dentes, é o profissional bem treinado, conhecedor do aparelho e de suas regulagens, para usá-lo adequadamente em cada caso. “A abrasão corta mais rápido do que a broca, por isso quando não utilizada adequadamente é perigosa”, afirma Lourdes.
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