SAÚDE BUCAL
O salvador da pátria?

Clínica de Odontopediatria da FO/USP aplica ART |
Indicado para países em desenvolvimento ou com grandes carências em saúde bucal, o tratamento restaurador atraumático é visto por alguns especialistas como uma boa solução para a saúde pública e até para a prática privada. Preconceito ainda dificulta a popularização da técnica
O Tratamento Restaurador Atraumático (ART, em inglês) começou a ser empregado na década de 80, na África, como um modelo alternativo de atendimento odontológico, adaptado a locais sem infra-estrutura convencional, zonas rurais ou onde persiste um quadro generalizado de más condições de saúde bucal.
A técnica se enquadra nessas situações com desenvoltura porque utiliza somente instrumentos cortantes manuais, tais como curetas, sem a necessidade de anestesia local, e isolamento absoluto.
Outra característica do ART é o emprego do ionômero de vidro como restauração. A substância desenvolvida na década de 70 tem presa química, ou seja, não requer aparelhos para ser endurecida, como o de fotopolimerização. Além disso, o material libera flúor e outros íons considerados benéficos para o elemento dental e para a cavidade bucal. |
Mesmo sendo utilizado há cerca de duas décadas em várias nações subdesenvolvidas e indicada a partir de 1994 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em locais precários, a técnica pode ainda ser considerada uma novidade no Brasil. Apesar de algumas experiências bem-sucedidas em saúde coletiva e de existir uma versão adaptada à realidade brasileira, que pode ser aplicada também nos consultórios particulares, o método ainda não se popularizou entre os profissionais.

CD Daniela Prócida Raggio |
A doutora em Odontopediatria pela Faculdade de Odontologia da USP (FO/USP) e estudiosa do ART, Daniela Prócida Raggio, lembra que uma das singularidades do método é a sua vocação para programa de tratamento. É mais do que uma técnica restauradora, pois compreende também ações educativas e preventivas.
Ela também ressalta um outro ponto positivo do ART em relação ao tratamento convencional: a humanização do atendimento. Através do que ela chama de “abordagem amiga do paciente” na fase restauradora, o indivíduo tratado sente-se confortável e tranqüilo. Em suma, a escolha de procedimentos pouco invasivos, caracterizados pelo uso exclusivo de instrumentos manuais e conseqüente manutenção de parte do tecido cariado são apontados pela especialista como alicerces dessa técnica de mínima intervenção (veja mais no destaque Versão brasileira).
Por suas características, o tratamento atraumático é indicado para a zona rural e regiões muito pobres, ou para ações de saúde coletiva. No entanto, ele também encontra seu lugar no consultório tradicional, com algumas adaptações. Segundo Daniela, no ambiente de trabalho convencional, cercado das comodidades urbanas como água encanada, energia elétrica e instalações adequadas, |
o cirurgião-dentista pode lançar mão de equipamentos ausentes em situações de campo, como sugador, refletor e caneta de alta-rotação para acessar a lesão dentinária. “Nestes casos, pode-se chamar o tratamento de ART modificado”, diz Daniela. O ART tem suas vantagens, mas está longe de ser um método infalível e universal. De acordo com a odontopediatra, as restaurações de ART em lesões oclusais pequenas apresentam longevidade comparável às de amálgama. No entanto, nas cavidades ocluso-proximais, a longevidade é menor. “E para as lesões amplas existem pesquisas em andamento, mas ainda não há indicação clássica”, complementa.
Popularização
O tratamento restaurador atraumático pode ser de grande utilidade e importância para a deficiente saúde bucal pública brasileira, já que permite ser implantado de maneira rápida, simples e tranqüila para o paciente e tem grande abrangência entre a população carente. Além disso, o método é bem recebido pelos pacientes.

CD José Carlos Imparato |
O professor doutor de Odontopediatria da FO/USP, José Carlos Pettorossi Imparato, que participou da implantação de um programa de ART na clínica de Odontopediatria da instituição em 2003, defende a aplicação e difusão do método no País. Segundo Imparato, a motivação para trabalhar com o ART na USP foi a observação de uma incoerência que há na própria universidade pública. Para ele, as inovações tecnológicas são laureadas no ambiente acadêmico, mas a maior parte da população não tem acesso aos avanços da Odontologia. “Escolhemos o ART porque não conseguimos promover saúde para todos, mas a faculdade deve conhecer a comunidade em que ela está inserida e ter o compromisso de beneficiá-la”, explica.
Imparato diz que o Programa de ART da FO/USP foi criado para atender crianças de comunidades próximas e para promover o ensino e o debate sobre o ART entre professores e alunos da instituição e de outras. Por semana, cerca de 15 procedimentos são realizados na clínica de Odontopediatria. Apesar das suas vantagens, Imparato já ouviu de outros profissionais que o tratamento restaurador é um “empobrecimento da Odontologia”. Ele argumenta que, apesar da sua simplicidade, a técnica tem amplo respaldo científico. Para Daniela, “o maior obstáculo é sempre a falta de conhecimento e o preconceito dos profissionais em relação ao ART”. |
Para que o ART seja mais utilizado, tanto Imparato quanto Daniela acreditam que os profissionais precisam conhecer e compreender melhor o método, visualizando-o dentro da saúde coletiva e como medida efetiva para tratar e prevenir a doença cárie. Para Daniela, o estímulo para que isso aconteça deve vir de cursos, palestras e principalmente das universidades e de seus professores, grandes responsáveis pela formação dos cirurgiões-dentistas.
Made in Brazil?
Mesmo sendo um tratamento simples apropriado para a saúde pública e coletiva e para lugares com pouca infra-estrutura, o ART ainda não é necessariamente barato. Isso porque a maior parte das marcas de ionômero de vidro, material usado nas restaurações, disponíveis no País precisam ser importadas, o que coloca seu preço em torno de R$ 150,00. Mas, algumas empresas nacionais, como a FGM, DFL, entre outras, estão começando a apresentar comercialmente suas versões do produto, que custam em torno de R$ 40,00, e participando de pesquisas para aprimorar o material no Brasil, o que reduziria seu custo.
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