SAÚDE BUCAL
A nova -velha Odontologia
Técnicas revolucionárias, propostas há décadas, ainda lideram a vanguarda do tratamento da lesão cariosa em dentina. No entanto, ainda não foram popularizadas nos consultórios, apesar de serem menos intervencionistas
Especial III - Marcelo de Andrade e Antonela Tescarollo
O legado de Greene Vardiman Black (1836-1915), um médico e cirurgião-dentista autodidata de Winchester, Illinois (EUA), considerado o pai da Odontologia Moderna, tem sido ensinado nos cursos de Odontologia nos últimos 100 anos. Entre seus feitos, Black sistematizou procedimentos restauradores e estabeleceu conceitos como o da extensão preventiva no preparo cavitário. Preocupado com a reincidência de cárie nas margens da restauração, o pioneiro sugeria um desgaste excessivo da estrutura dental sadia, deixando uma margem de segurança contra as bactérias cariogênicas. Certamente, sua contribuição para a Odontologia, na época, foi inovadora. Vale lembrar que, naqueles tempos, a radiografia era um luxo destinado a poucos profissionais, e o amálgama era o único material restaurador disponível - e foi para as necessidades específicas de preparo cavitário do amálgama que Black desenvolveu sua metodologia de restauração.
Os conceitos de Black ainda influenciam a academia - apesar da evolução registrada no segmento de materiais restauradores, onde o amálgama não reina mais absoluto. O princípio da extensão preventiva no preparo cavitário ainda é empregado por alguns cursos de Odontologia para desenvolver a habilidade manual dos alunos. Esta filosofia ficou tão enraizada ao longo das décadas que uma parcela significativa dos profissionais encontra dificuldade para assimilar novas formas de tratamento minimamente intervencionistas da doença cárie. O temor se justifica porque algumas dessas técnicas ainda exigem mais estudos clínicos longitudinais randomizados para se consolidarem definitivamente, como o capeamento pulpar indireto, principalmente em dentes permanentes.
A tese de que a reserva com relação a novas técnicas é um viés cultural tem como um de seus defensores o professor de Odontopediatria da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FO/USP), José Carlos Pettorossi Imparato.Ele participa de um grupo que pesquisa Técnicas de Mínima Intervenção, integrado por cientistas da FO/USP, no Centro Universitário Hermínio Ometto, São Leopoldo Mandic, Universidade Camilo Castelo Branco, PUC-Campinas e Unip-Campinas.
“A Odontologia é provavelmente a única profissão que compreende o funcionamento da doença e ainda assim prefere extirpar o órgão em vez de reverter ou estancar a enfermidade”, observa Imparato. Para ele, a Odontologia brasileira ainda não está preparada para lidar com a cárie de uma forma mais racional. O cirurgião-dentista brasileiro, na opinião do docente, ainda trata a doença cárie como uma gangrena que condena o tecido maculado. “Vivemos num mundo de bactérias e precisamos aprender a conviver com elas”, diz.
Os procedimentos minimamente invasivos tratados nesta edição, mesmo apesar de terem sido documentados e propostos há décadas, sugerem uma abordagem mais conservadora no tratamento do tecido afetado. Mas estas técnicas ainda são pouco utilizadas, embora preservem o máximo possível a dentina e o esmalte lesados. Fazem parte da lista de procedimentos “inovadores” abordados o capeamento pulpar indireto em dentes decíduos e permanentes, o selamento de lesão cariosa em dentina, o ozônio em cárie, a remoção química, entre outros.
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