SAÚDE BUCAL
Não é mágica. É química

CD Célia Rodrigues
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“A remoção da dentina cariada sem fazer pressão, com nenhuma ou pouca dor e sem a anestesia e o temido barulhinho do motor é possível com a utilização de produtos que removem quimicamente o tecido doente. A ação química deles está em dissolver o colágeno desorganizado da dentina em que há presença de bactérias e que não poderá se remineralizar. Assim, o tecido doente é amolecido e pode ser removido facilmente com instrumentos manuais.
Hoje, existem apenas dois géis de remoção químico-mecânica disponíveis no mercado, o Carisolv e o Papacárie, que, embora tenham ação parecida, possuem composições diferentes. No primeiro, o princípio ativo é o hipoclorito de sódio e, no segundo, é a papaína, substância extraída do mamão ( veja mais em “100% brasileiro” ).
Por ser um procedimento pouco invasivo, a técnica é bastante indicada para pacientes ansiosos ou que têm medo do tratamento. A doutora em Odontopediatria e professora associada da Faculdade de Odontologia da USP, Célia Delgado Rodrigues, também vê como útil a aplicação desses produtos em crianças, principalmente nas mais temerosas |
e nos casos em que a cavidade não atingiu a polpa, e no Tratamento Restaurador Atraumático (ART), técnica em que não se emprega o motor. A cirurgiã-dentista afirma ainda que, em certos casos, o uso desse tipo de produto pode ser mais vantajoso que o de instrumentos manuais somente, pois mesmo com estes é necessário fazer alguma pressão, o que pode causar dor. Na verdade, por não terem contra-indicações, os produtos de remoção químico-mecânica podem ser usados em qualquer paciente e situação. Mas, segundo Célia, “eles não são imprescindíveis e nem sempre vale a pena usá-los”. Por isso, ela os indica como uma opção de tratamento disponível para o profissional e não como rotina.
Quando usar
As ressalvas da odontopediatra estão relacionadas ao fato de que, conforme algumas pesquisas, a retirada total da dentina cariada tanto com o Cariosolv quanto com o Papacárie leva mais tempo do que com o método tradicional, usando motor de baixa rotação. Segundo um estudo de Ana Flávia Bissoto Calvo, orientada por Célia, que comparou o tempo gasto em cada método, os procedimentos com os produtos demoram cerca de oito a dez minutos, enquanto que com a broca esférica em baixa rotação, de dois a três - considerando que a duração pode variar conforme o tamanho da cavidade. Esse aumento, embora muito pequeno, pode agravar o estado de ansiedade de pacientes temerosos e de crianças.
Já na comparação entre o tempo necessário na remoção químico-mecânica e na com curetas e outros instrumentos manuais somente, Michelle Mikhael Ammari (2005) concluiu que é praticamente o mesmo.
Além disso, Célia acredita que não compensa usar os géis de remoção em situações de restaurações definitivas, que requerem isolamento absoluto e, geralmente, cunhas e matrizes, pois são procedimentos que já necessitam de anestesia. “O uso desses produtos implicará em maior gasto de tempo, sem nenhuma vantagem”.
A odontopediatra também lembra que hoje muitos profissionais optam por remover apenas a parte mais superficial da dentina cariada. Esse procedimento pode ser feito com os produtos, no entanto, na maioria dos casos, apenas os instrumentos manuais são suficientes, além de também não provocarem barulho de motor.
Seletividade de remoção
Tanto o fabricante do Papacárie quanto o do Carisolv afirmam que os produtos são seletivos, isto é, removem apenas a dentina cariada e que não poderá ser remineralizada, ou seja, a dentina infectada, e preservam a estrutura sadia.
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No entanto, a cirurgiã-dentista Fernanda Nahás Corrêa, em sua pesquisa de mestrado, verificou que não houve diferença entre as dentinas tratadas pelo método químico-mecânico, com as duas marcas disponíveis, e pelo mecânico, com instrumento cortante em baixa rotação.
O trabalho, desenvolvido pela Faculdade de Odontologia da USP chegou a esse resultado após a análise e comparação da microdureza dos tecidos remanescentes, característica relacionada à mineralização. A pesquisa concluiu que os géis não são seletivos em relação ao tecido cariado. |
| Remoção de tecido cariado com Carisolv |
Fernanda também verificou que as dentinas dos três procedimentos ofereceram adesão semelhante, permitindo a infiltração do adesivo nos túbulos dentinários e a formação intensa de tags . O estudo foi feito após a remoção total da dentina cariada (pois não houve seletividade de remoção de tecido cariado) no caso dos géis; eles foram reaplicados até que saíssem límpidos, o que, segundo os fabricantes, indica que eles não estão mais agindo.
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