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SAÚDE BUCAL
Ozônio, ação comprovada ou marketing?

Tóxico in vitro para alguns microrganismos, sua aplicação na profilaxia da cárie ainda está longe do consenso


Aparelho HealOzone

A cárie dental nada mais é do que uma doença de origem bacteriológica caracterizada pela desmineralização da superfície dental, que pode provocar cavidades, desconforto dor e eventual perda do elemento dental. Como o ozônio - gás azuláceo testado como bactericida desde o século XIX - tem se mostrado tóxico para alguns microrganismos, especialmente in vitro , sua aplicação direta para reduzir a flora cariogênica in vivo é polêmica. Pesquisadores têm, ao longo das três últimas décadas, verificado se o recurso poderia reverter o avanço da lesão da cárie e, com a ajuda de flúor, até permitir a remineralização da superfície afetada, tornando desnecessária a perda de tecido com a remoção de substrato cariado.

Segundo o cirurgião-dentista Edson Nagib, especialista em ozônio, não há contra-indicação na utilização do gás desde que o sistema de entrega seja por formação de vácuo. Este sistema, na opinião dele, oferece total segurança no atendimento devido à combinação de formação de vácuo e a utilização de cápsulas de silicone que se adaptam ao formato do dente a ser tratado.

De acordo com Nagib, existem aparelhos no mercado que, em caso de movimentação inesperada do paciente ou deslocamento da cápsula durante a aplicação, há entrada imediata por sucção de ar atmosférico para dentro da cápsula de pressão negativa e o processo é interrompido imediatamente. Conforme Nagib, o ozônio já é realidade no atendimento odontológico na Alemanha, Irlanda do Norte, Inglaterra Itália, Espanha e Canadá, sendo que durante os primeiros anos ficou restrito à Alemanha e Inglaterra.

O ozônio é utilizado para eliminar locais contaminados em áreas que se pode criar o vácuo necessário para a liberação controlada do gás. Nagib explica que a eliminação das bactérias, fungos ou vírus com esta técnica, dentro dos parâmetros de segurança, se dá em 100% numa profundidade de um décimo de milímetro por 30 segundos de aplicação, numa concentração média de 2.100 ppm (partes por milhão de O ³), onde o conteúdo de gás é substituído 100 vezes por segundo.

“Pode-se utilizar uma única aplicação através da realização de restauração, como também é possível fazer várias aplicações ao longo do tempo, monitorando-se as leituras de fluorescência para avaliar a efetividade do procedimento, geralmente em lesões expostas classe V. A remine­ra­lização da área afetada é essencial para a paralisação do processo de doença e ocorre também como conseqüência da intervenção bem- sucedida com o ozônio”, diz o especialista.

O custo na Inglaterra de um tratamento com ozônio gira em torno US$ 140 dólares por aplicação, incluindo uma restauração oclusal no valor cobrado. Segundo Nagib, a estimativa é que no Brasil o valor justo gire em torno de R$ 150,00 a R$ 210,00 por aplicação, com a homologação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de equipamentos para a aplicação da técnica.

O que diz a Cochrane

“Não há evidência de que a ozonoterapia possa reverter ou parar a cárie.” Esta pá de cal jogada sobre o suposto benefício proporcionado pelo gás no tratamento dental foi jogada por revisores da Colaboração Cochrane, organização internacional sem fins lucrativos, com sede no Reino Unido, cujo objetivo é “ajudar as pessoas a tomar decisões baseadas em informações de boa qualidade na área da saúde”.

Recentemente, um grupo de colaboradores da entidade, formado por GD Rickard, R. Richardson, T. Johnson T, D. McColl e L. Hooper, fez uma revisão da literatura produzida entre os anos 80 até 2003 sobre o uso do ozônio em tratamento da cárie. O cotejamento, segundo seus autores, não encontrou evidência robusta de que o gás é capaz de reverter ou parar a progressão da cárie. “Pesquisa de alto nível é necessária para mostrar o que funciona ou não. Ozônio não deveria ser considerado uma alternativa aos métodos correntes da prática dentária”, vaticinam os revisores.

“Dado ao alto risco de viés encontrado nos estudos disponíveis e inconsistência entre diferentes mensurações do resultado, não há evidência confiável de que a aplicação de ozônio na superfície cariada possa parar ou reverter o processo de cárie”, concluíram os colaboradores da Cochrane.

Dinamarqueses também são cautelosos

Até o presente momento, faltam provas para confirmar a eficácia da ozonoterapia na prevenção às cáries, relata o Centro Dinamarquês de Avaliação de Tecnologia em Saúde, órgão ligado ao Conselho Nacional de Saúde da Dinamarca, em um documento datado de março de 2005. “Não há evidências de que a ozo­no­terapia ofereça qualquer vantagem em comparação com as medidas preventivas atuais, como escovação, bochecho com flúor ou selamento de fissuras”, informa.

Segundo o Centro, que não indica nem contra-indica a técnica, se o efeito ozonoterapia em lesões de cáries dentais for demonstrado, pode ser que seja incluído como método suplementar da higiene pessoal e limpeza profissional.

 

 
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