SAÚDE BUCAL
Água benta
Fluoretação da água é endossada pelos principais organismos da saúde mundiais para o combate à cárie, mas não há consenso sobre seus resultados
Especial IV - Marcelo de Andrade e Antonela Tescarollo
Na última reportagem especial da série sobre métodos recentes de tratamento da cárie dental, principalmente os que seguem o conceito de Mínima Intervenção (MI), corrente que pesquisa e privilegia técnicas mais conservadoras com relação à preservação de tecidos dentais, a Revista ABO Nacional dedica esta matéria de capa à prevenção, um dos alicerces de qualquer iniciativa de promoção de saúde.
A edição se detém especificamente sobre a polêmica em torno da efetividade da fluoretação da água no sistema de abastecimento público, medida implantada pela primeira vez no Brasil há mais de 50 anos pioneiramente no município capixaba de Baixo Guandu e que se tornou obrigatória em municípios equipados com estações de tratamento de água conforme a Lei 6.050/74.
A celeuma gira em torno da taxa de efetividade do método. Uma revisão sistemática encabeçada por Marian McDonagh, da Universidade de York (Reino Unido), indica variações de 5% a 64%, com um valor médio pontual de 14,6% na redução da incidência da cárie na população, mais notadamente entre as crianças. No entanto, o nível de evidência encontrado foi apenas moderado, ou seja, a equipe concluiu que não existiam estudos de alta qualidade para avaliar o efeito da fluoretação da água sobre redução de cárie.
No Brasil, os estudos que servem de parâmetro para estimar o sucesso da fluoretação foram realizados em Baixo Guandu (ES), Taquara (RS), Curitiba (PR) e em outras cidades. Os resultados indicaram uma redução na experiência de cárie de 50% a 60%, de acordo com especialistas.
O debate científico e epidemiológico, porém, não pode distrair a comunidade odontológica. O êxito comprovado da técnica na prevenção à cárie, com a manutenção de concentrações ótimas e acesso a toda a população, exige dos cirurgiões-dentistas, mesmo dos profissionais que não atuam diretamente com a saúde coletiva, uma postura firme na reivindicação por uma saúde pública mais eficiente, ampla e melhor qualidade de vida de uma forma geral. O posicionamento se justifica à luz das evidências. Estudos sugerem que fatores de risco socioeconômicos desfavoráveis, como déficits educacionais e habitacionais e grau de instrução precária, reduzem o alcance da fluoretação da água.
Novas pesquisas se fazem necessárias não só para determinar com precisão a efetividade como para ceifar os argumentos contrários à sua aplicação. Apesar de ser endossada por mais de 150 organismos internacionais, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), Federação Dentária Internacional (FDI) e Associação Internacional de Pesquisa Odontológica (IADR, em inglês), a fluoretação da água ainda provoca reações desfavoráveis à sua continuidade. Nos últimos anos, o Congresso Nacional já incubou pelo menos duas propostas pedindo a sua interrupção.
Em 2003, o Projeto de Lei nº 510, apresentado pelo deputado federal Carlos de Souza (PL-AM), determinava a suspensão do serviço Em 2005, foi a vez do senador Antônio Carlos Valadares (PSDB-SE) apresentar o Projeto de Lei nº 297 com o intuito de suspender a medida. Ambos foram abortados. Porém, nada impede que outras iniciativas similares sejam propostas nas casas legislativas.
Esta reportagem também apresenta informações sobre como implantar um sistema de fluoretação em municípios e dados atuais do alcance da medida no território nacional.
Résume - Oral Health
Holy Water
This our last report in a special series on recent methods for treatment of tooth decay, especially those following the Minimum Intervention (MI) concept, discusses this line of research that favors more conservative techniques for conserving dental tissues. Revista ABO Nacional is, therefore, dedicating its cover to this preventive technique, one of the pillars for any initiative promoting health.
This edition ponders the argument about the effectiveness of fluoridation of public water systems, a method first implemented in Brazil more than 50 years ago. It pioneered in the state of Espírito Santo in the town of Baixo Guandu and, as set forth in Law 6.050/74, became mandatory in townships having water treatment stations.
The heat of the debate centers on the effectiveness of the method. A systematic review headed by Marian McDonagh, of the University of York (United Kingdom), indicates rates of variation in effectiveness of 5% to 64%, with a mean rate of 14.6% in the reduction of the tooth decay incidence amongst the population, most notably among children. Nevertheless, the level of evidence found was only moderate, that is, the team concluded that there were no high quality studies evaluating the effect of water fluoridation on reduction of tooth decay.
In Brazil, the studies that serve as parameters to estimate the success of fluoridation were carried out in Baixo Guandu (ES), Taquara (RS), Curitiba (PR), and other cities. The results, according to specialists, indicated a reduction of 50% to 60%.
Scientific and epidemiological debate, however, cannot distract the dental community. Water fluoridation reduces tooth decay, but maintenance of optimum concentrations and access by the entire population demand a firm stand by dentists for a more efficient, ample, and fair public health service, plus overall improved quality of life. In view of the evidence, this position seems justified. Studies suggest that unfavorable socioeconomic factors, such as housing, and unsatisfactory level of instruction, reduce the reach of the measure. |
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