CARREIRA
Dentista do trabalho
 |
Sua função é acompanhar as condições da saúde bucal dos trabalhadores para a prevenção de seus reflexos nas funções ocupacionais
João Rodolfo Hopp graduou-se em 1983 pela Faculdade de Odontologia de Bauru, da Universidade de São Paulo (FOB-USP). Em 1986, passou a atuar como responsável técnico e gestor do Programa de Odontologia Ocupacional em empresas do setor energético. Especializou-se em Periodontia em 1988 e em Odontologia do Trabalho em 2003. Hoje trabalha para uma empresa do setor elétrico. Paralelamente, ministra cursos de especialização em Odontologia do Trabalho, divulga-a junto à classe odontológica e demais segmentos ligados a especialidades da saúde e segurança ocupacional.
A opção pela Odontologia do Trabalho foi delineada naturalmente em sua carreira. Hopp começou a trabalhar com 14 anos. As experiências anteriores à graduação e o conteúdo aprendido no ambiente acadêmico foram talhando sua formação. Na realidade, sempre teve forte inclinação para a atenção profissional voltada para o adulto. Os resultados da experiência no atendimento à uma população infanto-juvenil em uma comunidade na divisa entre os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul em 1986 serviram para esta vocação. Nessa passagem de sua vida, percebeu que não bastava oferecer cuidados clínicos e pedagógicos para |
as novas gerações sem reeducar os adultos. A constatação foi o “oxigênio” que alimentou seu entusiasmo em organizar, implantar e manter um programa que, através do monitoramento e promoção da saúde bucal dos empregados, privilegiasse a prevenção pela educação e compreensão dos adultos. O exercício da Odontologia do Trabalho difere da rotina de um consultório. Para começar, o modelo de interação aprendido nas escolas mostra-se insuficiente no ambiente das organizações. O isolamento profissional não tem lugar na vida corporativa. Nas empresas, o cirurgião-dentista é mais um recurso técnico que necessita se relacionar com outros profissionais das mais variadas formações.
Segundo Hopp, o especialista desenvolve novas competências no campo didático-pedagógico e se obriga a estudar e contatar todos os avanços e atualidades das mais diversas especialidades, não só odontológicas, como médicas e de outras áreas do saber, que se tornam importantes na prática das atividades voltadas à saúde e à segurança do trabalho.
Quem se lança na área pode começar a fazer a prospecção da clientela na própria clínica. “Basta apenas que haja um interlocutor para nossas mensagens, pois cada cliente dos consultórios particulares certamente desempenha papéis profissionais e é um formador de opinião em seus ambientes de trabalho, podendo, amanhã, ser o diferencial para a comercialização de um projeto”, diz. “A Odontologia do Trabalho é uma especialidade que nos trará, no futuro, as oportunidades que somos capazes de semear hoje”, complementa.
Derrubando mitos
Na sua jornada, Hopp abriu mão de alguns mitos da profissão. Na prática, descobriu que o verdadeiro respeito profissional não se conquista através da cor do uniforme ou tampouco pela extensão da parede do consultório onde são pendurados os títulos. O contato com a realidade empresarial também o levou a refletir sobre o papel do profissional da saúde na sociedade e sobre sua missão, quase sacerdotal, de difundir conteúdos técnicos, de maneira simples, para pessoas que não tiveram acesso a essas informações no transcorrer da vida.
Adaptação
Atuar em uma organização implica adaptação às normas do setor.Como no consultório, o planejamento é que rege todas as ações. “Nosso trabalho obedece às programações anuais, com previsão dos exames bucais ocupacionais em todos empregados. As ações pedagógicas baseadas nos resultados do ano anterior também seguem um cronograma traçado de acordo com a necessidade e disponibilidade dos trabalhadores”, explica Hopp.
O fato de estar à frente da gestão e responsabilidade técnica do programa corporativo, com atividades administrativas e também em clínico-diagnóstica, exige dedicação em tempo integral à empresa.
O envolvimento quebra a rotina, permitindo a verificação in loco de situações de interesse da saúde dos trabalhadores, acompanhamentos de casos especiais (lesão cancerizável, acidente com envolvimento estomatognático e outros), além das intervenções técnico-administrativas, junto aos recursos profissionais autorizados, que são parceiros na realização dos exames bucais ocupacionais dos empregados, nas localidades descentralizadas, distribuídas no Estado de São Paulo.
Sempre alerta
Em decorrência das características das suas atividades na Odontologia do Trabalho, ele nunca deixou de exercer o papel clínico, uma vez que, anualmente, responde pelo exame bucal ocupacional de aproximadamente 400 empregados. É claro que reduziu a prática de procedimentos curativo-reabilitadores, mas se sente obrigado a se atualizar e se manter apto para realizar atendimentos para sanar necessidades provocadas por eventuais acidentes com empregados no ambiente corporativo, que envolvam as estruturas estomatognáticas, minimizando desdobramentos desnecessários ou seqüelas irreversíveis.
Hopp não pensa em retornar ao cotidiano da Odontologia curativo-reabilitadora. Mas, se a vida profissional assim o exigir, ele diz que certamente estará mais bem preparado, como pessoa, como gestor e, consequentemente, como técnico para o exercício da especialidade da Periodontia.
Competências
De acordo a Resolução 025/2002 do CFO, o cirurgião-dentista do trabalho identifica, avalia e trata da vigilância dos fatores ambientais que possam constituir risco à saúde bucal no local de trabalho, em qualquer das fases do processo de produção e presta assessoramento técnico e atenção em matéria de saúde, de segurança, de ergonomia e de higiene no trabalho, assim como em matéria de equipamentos de proteção individual. Ele atua de forma integrada à equipe interdisciplinar de saúde ocupacional. O órgão elenca como atividades do especialista o planejamento e implantação de campanhas e programas de duração permanente para educação dos trabalhadores quanto a acidentes de trabalho, doenças ocupacionais e educação em saúde; organização estatística de morbidade e mortalidade com causa bucal e investiga possíveis relações com as atividades laborais e realização de exames odontológicos para fins trabalhistas.
“O cirurgião-dentista do Trabalho é o profissional de Odontologia que requer a formação e atualização relativa a todas as especialidades, acrescida dos conhecimentos e paradigmas produzidos por todas as demais disciplinas da saúde ocupacional, engenharia de segurança, direito do trabalho e administração plena, ou seja, é um profissional em constante desenvolvimento e estudo”, afirma Hopp.
Uma das habilidades mais exigidas do especialista, segundo Hopp, é a capacidade para lidar com pessoas. Quanto à formação técnica, o profissional deve ter um sólido embasamento nas disciplinas básicas, que permitem seu desenvolvimento no campo do diagnóstico de patologias bucais e conhecimento em áreas da fisiopatologia geral, que são essenciais à compreensão de outros temas da saúde integral humana. Somam-se a esse repertório os conhecimentos básicos que norteiam a Medicina do Trabalho e Engenharia de Segurança, assim como a noção mínima sobre marcos legais que regem o mundo do trabalho, que são competências mínimas para aqueles que integram a equipe multiprofissional ocupacional.
Quem tem interesse em atuar na gestão de projetos deve também se capacitar em conteúdos em disciplinas de Administração de Empresas. Para exercer a função em nível gerencial é conveniente uma especialização, MBA ou similares para suprir as lacunas da grade curricular em Odontologia.
O site do Conselho Federal de Odontologia (CFO) apresenta informações sobre registro e situações dos cursos de especialização existentes. Recomenda-se, em especial, a leitura das Resoluções CFO 022/2001 e CFO 025/2002 . Hopp recomenda livros sobre Odontologia do Trabalho, Administração, Gestão e Marketing. Também é preciso conhecer os principais tratados sobre Medicina do Trabalho e legislação específica, como a Consolidação da Leis Trabalhistas (CLT), por exemplo.
Voltar ao índice da Revista |