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  S A Ú D E I N T E G R A L

Atendimento esquecido, prejuízos aumentados

Apesar de barato e efetivo em prevenir complicações na saúde, o serviço odontológico ainda é raro em UTIs, causando danos aos pacientes e aos cofres dos hospitais

A importância da higiene bucal para o bem-estar, a prevenção de doenças sistêmicas e a melhor recuperação do paciente internado na UTI não é algo bem difundido no Brasil. A cirurgiã-dentista Teresa Márcia Nascimento de Morais, que há cinco anos deu início ao atendimento odontoló­gico na UTI da Santa

Casa de Misericórdia de Barretos (SP), ao notar a falta desse serviço, e que hoje é coordenadora do Departamento de Odontologia do hospital, conta que muitos estudos relatam a pequena quantidade de hospitais brasileiros com um CD integrado à equipe multidisci­plinar da Unidade, ou com enfermeiros treinados e orientados sobre métodos de higiene bucal adequados aos pacientes nessas condições.

Para Teresa Márcia, um dos motivos essenciais para essa negligência é que, mesmo com a evolução do conhecimento, a Medicina ainda dá pouca importância aos problemas bucais e não incorporou os benefícios que os cuidados com o sistema estomatognático trazem ao paciente. “Há mais de 150 anos a higiene das mãos é a mais importante medida para o controle da infecção hospitalar. Mas, até o momento, uma fonte de infecção tão importante como a boca, considerada um ambiente propício para o crescimento microbiano, vem sendo esquecida”, diz a CD. Por outro lado, também é preciso considerar que muitos profissionais da Odontologia não estão preparados para atuar na UTI, pois desconhecem os aspectos médicos relacionados ao seu trabalho. “Médicos e cirurgiões-dentistas precisam integrar conhecimentos para o manejo completo do paciente, em especial do crítico, e lhe proporcionar qualidade de vida”, conclui Teresa Márcia.

O doente internado na UTI requer cuidados especiais e complexos dos profissionais que o cercam. O CD, além de reunir conhecimentos técnico-científicos suficientes para tratar problemas bucais que possam ser um complicador do caso de forma adequada às possibilidades e limitações desses pacientes, deve ter boas noções de Suporte Básico à Vida (BLS), que inclui procedimentos básicos de primeiros socorros em emergências cardíacas.

A cirurgiã-dentista ainda conta que na Santa Casa de Barretos são realizados, periodicamente, cursos de capacitação em higiene bucal para a equipe da UTI, ministrados por cirurgião-dentista. Além disso, semanalmente, toda a equipe multidisciplinar da Unidade reúne-se para discutir a condição de saúde de cada um dos pacientes, para, juntos, determinar o plano de tratamento. A CD ainda destaca que a Odontologia é sempre contemplada nas estratégias traçadas dentro do hospital para o controle das infecções hospitalares.

Ruim para a boca e para o bolso

Por colaborar na prevenção de infecções hospitalares, principalmente as respiratórias, e contribuir para a preservação da saúde e recuperação do paciente, os procedimentos de higiene bucal são benéficos não somente aos internados, mas também ao próprio hospital, que tem seus custos reduzidos. Dificuldades na melhora do quadro clínico e conseqüente piora no prognóstico prolongam a estada do paciente na UTI e diminui a possibilidade de vagas, aumentando os gastos hospitalares.

É preciso ressaltar ainda que o atendimento odontológico na UTI envolve gastos irrelevantes, pois são procedimentos simples e baratos e que proporcionam grandes benefícios. Atualmente, muitos hospitais usam diversos recursos para combater o grande volume de bactérias na orofa­ringe, uma das principais causas das infecções respiratórias hospitalares, como a administração e aplicação tópica de antibióticos, fisioterapia respiratória, oxige­nio­terapia e outras medidas preventivas. Mas, estes métodos, além de mais caros que a prática da higiene bucal, são mais prejudiciais ao paciente, pois aumentam o risco de resistência dos mi­crorganismos, no caso dos medicamentos.

A mestre em Periodontia e doutora em Saúde Pública , ambos pela USP, Maria Christina Brunetti completa que pesquisas indicam que o controle do biofilme dental do paciente crítico pode ser feito pelo menos três vezes ao dia. “O trabalho pode ser feito tanto por um cirurgião-dentista, como por um THD sob a supervisão de um CD, ou também pelo próprio auxiliar de enfermagem, desde que treinado e supervisionado pelo CD”, diz Maria Christina.

A higiene bucal do paciente crítico 


Antes e depois: cuidados aliviam dor e desconforto

O biofilme dental fornece proteção às bactérias, por isso seu controle efetivo deve ser feito pela remoção mecânica dos depósitos microbianos aderidos à boca e no tubo, caso o paciente esteja entubado, com o uso de escova de dente própria, fio dental, gaze, gluconato de clorohe­xidina a 0,12% e, se necessário, espátula de madeira. Além da remoção da placa bacteriana, o atendimento odontológico tam bém deve buscar o alívio da dor e do desconforto na boca, a preven­ção de acidentes relacionados com a cavidade bucal e educação para saúde de pacientes e de toda a equipe multiprofissional da UTI.

No entanto, nem sempre os procedimentos mecânicos podem ser realizados com eficiência, pois “não é raro o paciente apresentar dispositivos intrabucais, sela­mento dos lábios e dentes, aumento da tensão dos músculos faciais, movimento da língua, cabeça e pescoço e reações aver­sivas mais sérias”, conforme descrito no capítulo Pacientes em Unidades de Terapia Intensiva: Atuação Conjunta dos Médicos e dos Cirurgiões-dentistas, do livro Cardiologia e Odontologia – Uma Visão Integrada.

Nestas situações, tem-se lançado mão de diversas outras substâncias para fazer um controle químico da placa. O quimioterá­pico escolhido deve preencher os requisitos de amplo espectro de ação, alta substanti­vidade, não causar danos aos tecidos bucais, promover a diminuição significativa do biofilme e da gengivite e não proporcionar o desenvolvimento de bactérias resistentes.



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