A
jovem Odontologia para jovens
Cirurgiões-dentistas de diversas especialidades
aderem às estratégias da Odontohebiatria,
que têm
ajudado a estreitar os laços entre profissionais
e pacientes adolescentes e potencializado os acertos
do atendimento odontológico a esse
público

CD Carolina Guedes |
A área
da Odontologia que visa ao conhecimento do jovem,
a Odontohebiatria, tem sua recente origem
intimamente ligada à constatação
científica de que, após o nascimento,
nenhuma fase da vida é tão cheia
de alterações físicas e psicológicas
quanto a adolescência.
É nessa
fase que, por exemplo, o ser humano adquire
25% de sua estatura final e 50% de seu peso total. Apesar de
não serem quantificadas, as mudanças
psicológicas são igualmente significativas,
agravadas pela necessidadede os jovens se encaixarem
e serem aceitos socialmente em determinados grupos
e pela forte influência que padrões
de beleza e comportamento exercem nessa faixa etária.
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Além disso, o adolescente
vive o conflito da fase de transição
entre a infância e a vida adulta. Cuidar
desse paciente é papel do profissional
hebiatra, especialista no período de maior
desenvolvimento físico, emocional e psicológico
do ser humano.
Etiologicamente, a palavra hebe, em grego, significa juventude. Em razão
disso, a hebiatria diz respeito ao estudo da juventude e, portanto, a Odontohebiatria
dedica-se ao cuidado com o adolescente, na faixa etária de 10 a 20 anos
de idade, no que diz respeito à prevenção e
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ao
tratamento de problemas bucais.
Mas
essa área
ainda não é oficialmente uma especialidade
odontológica e, portanto, não há dados
sobre quantos cirurgiões-dentistas fazem
uso dela no Brasil.
A Odontohebiatria tem se enquadrado
mais como um conhecimento, englobado a princípio
pela Odontopediatria e que vem sendo estudado e
utilizado por vários cirurgiões-dentistas
em seus consultórios, para aparar as arestas
do atendimento desse grupo de pacientes, minimizando
os erros e potencializando os acertos durante
otratamento de indivíduo tão peculiar.
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Esse é o
caso de Carolina Cardoso Guedes, professora da
Universidade Braz Cubas (UBC), de Mogi das Cruzes
(SP). “ As crianças, os idosos e
os adultos têm facilidade em procurar um atendimento especializado, mas
o mesmo não acontece com o adolescente, que se encontra numa fase muito
característica e especial da vida. Na maioria das vezes ele acaba continuando
o tratamento com o odontopediatra, mas não de uma maneira tão confortável”,
explica a cirurgiã-dentista, que acredita que a Odontohebiatria tem potencial
para vir a se tornar uma especialidade. |

CD Sandra Kalil Bussadori |
Um
paciente em metamorfose
O
cirurgião-dentista
que tiver um adolescente em sua cadeira pode,
facilmente, deparar-se com assuntos como
drogas, sexo, distúrbios alimentares,
hiperatividade, introspecção
e suicídio, entre outros. Nessa fase
também ocorrem diversas fases de desenvolvimento
da cavidade bucal, e todas essas transformações
refletem diretamente na cavidade bucal.
Ao
mesmo tempo em que o conhecimento técnico-científico
aprofundado
das questões que envolvem a adolescência facilita o atendimento,
há transtornos que o dificultam, como os de comportamento (hiperatividade,
ansiedade, retraimento). Os transtornos de ordem alimentar, como a bulimia, podem
ter conseqüências igualmente preocupantes, refletindo-se na boca. O
abuso de álcool e outras drogas
também são visíveis
na cavidade bucal e representam problema
tanto para a saúde oral como para
a saúde integral do paciente e suas
relações sociais. Por isso,
o olhar do profissional deve ir além,
alcançando o comportamento do adolescente
da forma mais ampla possível.
Segundo Sandra Kalil Bussadori, odontopediatra e coordenadora das clínicas
de Odontohebiatria da Unimes e da Uninove, um cirurgião-dentista que
se deparar com um paciente adolescente desatento e impulsivo, comportamento
que contribui para o insucesso de alguns tratamentos e de condutas preventivas,
pode estar diante de um indivíduo que sofre de déficit de atenção
ou hiperatividade, um dos transtornos mentais mais freqüentes em crianças
e adolescentes em idade escolar. Apesar disso, a hiperatividade é pouco
conhecida por profissionais da área da educação e mesmo
entre os profissionais de saúde. O desconhecimento acaba levando a um
diagnóstico tardio, e crianças e adolescentes hiperativos têm
seu sofrimento prolongado. Por outro lado, determinar graus de normalidade
na atividade de um adolescente é assunto polêmico. Para a especialista,
os principais sintomas são agitação excessiva e inquietação, “facilmente
identificáveis no consultório odontológico”.
Outros distúrbios comuns à adolescência que podem interferir
significativamente no tratamento odontológico são os de conduta,
manifestados através da violação de direitos fundamentais
dos outros e das normas sociais vigentes. Jovens com esses distúrbios
costumam consumir cigarro, álcool e entorpecentes, além de apresentar
precocidade no que diz respeito à sexualidade.
Também têm
dificuldades em se concentrar. Segundo Sandra, “o
tratamento desses distúrbios, além
de terapia farmacológica, necessita
de intervenção psicoterápica,
tanto individual quanto familiar”.
A ansiedade, não
rara em adolescentes, também pode
ser uma grande inimiga da saúde bucal. “Deve-se
considerar que, muitas vezes, o jovem pode
transferir essa ansiedade para o tratamento,
promovendo alterações de comportamento
e na cavidade bucal devido à mudança
no fluxo salivar e ao maior consumo de alimentos
por causa de picos de ansiedade”, explica
a especialista. Ela
orienta o profissional a não se esquivar
da situação e, se houver procura
de diálogo sobre o assunto, a abordar
o problema de forma sutil, ouvindo muito
mais do que falando. “Isso aumenta
a confiança do adolescente no profissional”,
justifica.
A ansiedade excessiva e a preocupação exacerbada com possibilidades
futuras caracterizam outro distúrbio, a disforia. Nesse caso, as manifestações
clínicas são evidentes: dor de estômago, cefaléia,
dispnéia, náuseas, tonteiras, boca seca e outros males sintomáticos. “Nesses
casos, uma terapia para controle de ansiedade pode ser interessante”,
aconselha Sandra.
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Alimentação
transviada
Mas
nenhum outro distúrbio é tão
evidente na boca dos pacientes – jovem
ou adulto - quanto os alimentares.
O assunto foi capa da edição
82 da Revista ABO Nacional e
trouxe depoimentos de diversos
profissionais que
estudam a saúde bucal de indivíduos com esses problemas, como
bulimia, anorexia, obesidade e outros transtornos de ordem alimentar.
Na adolescência,
o assunto ganha dimensão. “A alimentação possui um
valor que, muitas vezes, pode ser simbólico, de satisfação
pulsional - o alcance do prazer por agressividade. Os distúrbios acarretarão
alterações físicas e comportamentais, de acordo com o aspecto
comportamental de cada jovem diante das situações em que se encontram
e da busca incessante por ser aceito e ser belo e de, muitas vezes, ‘descontar’ em
uma ingestão alimentar excessiva e compulsiva para suprir carências
ou afetividades transitórias”, explica Sandra Kalil, que dedicou
algumas páginas de seu Manual de Odontohebiatria, co-escrito por Milton
Masuda e publicado pela Editora Santos, à relação entre
a bulimia e problemas de saúde bucal.
Segundo
o manual, pacientes bulímicos
(meninas, na maioria) apresentam
erosão dental (perimó¬lise)
nas superfícies palatais
dos dentes por causa do vômito
auto-induzido, que diminui o pH
bucal, favorecendo
a erosão; ilhas de amálgama em dentes com restaurações
dessa substância, causadas por deterioração do esmalte adjacente
após a ação do suco gástrico ácido; aumento
do índice de cárie em todos os dentes, pela ingestão de
carboidratos, diminuição do pH bucal, conseqüente acidificação
da saliva e higiene bucal ineficaz; edema de glândulas salivares (parótidas
e sublinguais), causado por má nutrição, alta ingestão
de carboidratos e alcalose metabólica; mucosite no palato, causada pela
acidez do suco gástrico. |
A ingestão
rápida de alimentos e
regurgitação também
causam traumatismos; a avitaminose
e os vômitos favorecem
a queilite (lábios e comissura
labial), e o estresse, ansiedade,
depressão e alterações
oclusais provocam bruxismo. Por
fim, o manual fala da xerostomia
em toda a cavidade bucal, devido à maior
acidez e aos grandes períodos
em jejum; dos problemas gengivais
generalizados, causados pela
higiene ineficaz, e a hipersensibilidade
dentinária generalizada,
resultante da erosão.
Entre os meninos, o transtorno mais popular é a vigorexia, caracterizado
pela busca por um corpo perfeito através da super-
valorização dos exercícios musculares. Assim como os bulímicos,
os portadores de vigorexia sofrem de distorção da sua imagem corporal,
achando-se magros e fracos. Para resolver o que julgam ser um problema, dedicam
horas do seu dia às academias de musculação, comprometendo
muitas de suas atividades de rotina e, especialmente, sua saúde.
Sandra chama a atenção para outro comportamento perigoso à saúde
bucal do portador de vigorexia. “A ingestão freqüente de suplementos
alimentares, principalmente de carboidratos, não é seguida de higienização
correta – que é relegada a segundo plano em nome do culto ao corpo.
Não raro esse distúrbio resulta em cárie dentária
e comprometimento periodontal. O uso de alguns anabolizantes pode causar xerostomia
também”. |
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