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SUA SAÚDE
Corações em risco

Ao se identificar e controlar os fatores que contribuem para cardiopatias, é possível determinar o risco cardiovascular global de um paciente e iniciar o tratamento com a atenção voltada às raízes do problema

A prevenção a doenças cardíacas deveria ter início aos 20 anos de idade – é o que recomenda a American Heart Association (AHA) nas suas novas Diretrizes para a Prevenção Primária de Doenças Cardiovasculares e Acidente Vascular Cerebral, divulgadas na revista científica norte-americana Circulation. Para o cardiologista Carlos Serrano Jr., uma prevenção adequada está intimamente ligada ao conhecimento dos fatores de risco para doenças cardíacas. “Muitas pessoas descobrem que têm doenças do coração quando já pode ser tarde”, lamenta.
O cardiologista explica que são vários os fatores de risco para cardiopatias, todos caracterizados por condições que predispõem o indivíduo a apresentar maior risco de desenvolver doenças do coração e dos vasos. Alguns deles são imodificáveis, difíceis de serem revertidos ( quadro pág.334), como hereditariedade, idade e sexo. Filhos de portadores de doenças cardíacas são mais propensos a desenvolverem esse tipo de enfermidade. Pessoas acima de 65 anos também estão mais vulneráveis, sendo que mulheres idosas que sofrem um ataque cardíaco têm duas vezes mais chances de morrer. Apesar dessa peculiaridade dos mais velhos, homens, mesmo numa faixa etária menor, têm grandes chances de ter um ataque cardíaco. Entre as mulheres, a ocorrência de cardiopatias aumenta pós-menopausa, mas ainda assim não é tão elevada como a dos homens.

Mas a boa notícia é que vários fatores de risco para doenças do coração são modificáveis. “Neles, podemos influir, prevenindo ou tratando”, explica o médico Serrano. Entre os mais comuns nos dias atuais está o tabagismo. As chances de um fumante sofrer um ataque cardíaco é duas vezes maior naquele que não fuma, e fumantes passivos também têm o risco aumentado. Isso porque o fluxo de sangue e a irrigação sanguínea entre o pulmão e o coração são intensos, e o funcionamento que depende da relação entre os dois órgãos é prejudicado pela fumaça do cigarro. Há contaminação do sangue arterial, que, ao cumprir sua função de levar o oxigênio às células, transportará, também, monóxido de carbono.

Além disso, com o passar do tempo, os alvéolos pulmonares vão sendo cimentados pelos componentes da fumaça, perdendo sua funcionalidade.

Os riscos de doença cardíaca também aumentam com a elevação dos níveis de colesterol no sangue. Junto a outros fatores modificáveis, como pressão arterial elevada e o próprio tabagismo, essa possibilidade é ainda maior. Mas o cardiologista Carlos Serrano chama a atenção para estudos que indicam que os níveis de colesterol total em pacientes com doença coronária são pouco elevados, em torno de 225 mg/dl, e as curvas de distribuição dos níveis de colesterol entre indivíduos com e sem doença coro¬ná¬ria praticamente se sobrepõem. “É certo que quanto mais elevado o nível de colesterol total, maior a chance de desenvolver doença cardíaca. Mas, para a maioria das pessoas, a dosagem isolada do colesterol total não é um bom método para diferenciar indivíduos sob risco”, sugere o cardiologista.

Outro fator de risco para doenças cardíacas que pode ser modificado é a pressão arterial elevada. Para mantê-la em níveis altos, o coração realiza um trabalho maior, o que hipertrofia o músculo cardíaco, que se dilata e fica mais fraco com o tempo. “A presença de hipertensão arterial aumenta em muito o risco de doença arterial coronária aterosclerótica, assim como as doenças cerebrovasculares, insuficiência vascular periférica e insuficiência cardíaca”, completa Serrano. O problema ganha proporções continentais quando observados os números da hipertensão no Brasil: segundo estimativa de 2004 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 17 milhões de hipertensos no País. Para essas pessoas, os especialistas orientam: não fiquem parados, mexam-se. Caminhar mais, subir escadas em vez de usar o elevador, manter o peso ideal, ter uma alimentação saudável são algumas medidas que devem ser acompanhadas de tratamento médico e de medicação.



Atenção, diabéticos
Na presença do diabete, também um fator de risco modificável para doenças cardíacas, a hipertensão e outros fatores se tornam ainda mais ameaçadores. Segundo o cardiologista Serrano, o diabete aumenta o risco de doença cardiovascular em cinco vezes quando associado ao tabagismo, à pressão alta e a altos níveis de colesterol. “Dados comparativos entre indivíduos com e sem infarto prévio e com e sem diabete tipo 2 mostram riscos menores em diabéticos sem doença coronária, e há evidência de que as doenças cardiovasculares são responsáveis por 80% dos óbitos em diabéticos tipo 2. Dessa forma, ainda que as condições metabólicas sejam satisfatoriamente controladas, a presença da doença já permite classificar esses pacientes como de alto risco”.

Também associada a quase todos os fatores de risco para a doença cardíaca está a obesidade. A pessoa com excesso de peso tem maior probabilidade de sofrer um acidente vascular cerebral ou doença cardíaca, já que seu corpo exige maior esforço do coração. A obesidade ainda está relacionada à pressão arterial e ao colesterol elevados e diabete.

Um tipo de obesidade, a vis¬ceral abdominal, caracterizada pelo acúmulo de células gordas na região do abdômen, é especialmente preocupante devido à sua relação íntima com a síndrome metabólica, condição que acarreta uma série de danos ao organismo. A síndrome metabólica se deve a uma conjunção de fatores.

O tecido adiposo visceral sintetiza menos o hormônio adipo¬nectina, facilitando a resistência à insulina. Ao mesmo tempo, os ácidos graxos da gordura visceral captam menos este hormônio e, com a falta dele, os níveis de gli¬cose na corrente sanguínea se elevam.

Além disso, o tecido adiposo visceral é uma fonte potente de citocinas pró-inflamatórias. Atualmente, está bem estabelecido o papel dessas citocinas na instalação e desenvolvimento de placas ateroscleróticas, compostas especialmente por lipídios e tecido fibroso e que se formam na parede dos vasos, podendo obstruí-los totalmente.

Pacientes que já sofreram infarto do miocárdio também precisam ficar alertas. A história pregressa, por si só, não se enquadra na definição de fator de risco, mas, alerta Serrano, “é extremamente importante destacar que o risco de um segundo evento em pacientes que já sofreram um infarto do miocárdio é de cinco a sete vezes maior do que o da população em geral”. Segundo o cardiologista, cerca de metade dos óbitos por doença cardiovascular ocorre em indivíduos com história prévia de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral.


Colesterol: depósito de gordura estreita passagem do sangue na artéria

Vilãs que moram no seu coração
Conheça como e porque ocorrem algumas das principais doenças cardíacas

Aterosclerose: É causada pelo depósito de gorduras (colesterol), cálcio e fibrina na camada interna das artérias, estreitando a passagem do sangue e endurecendo o tecido. Essa camada interna é chamada placa ou ateroma. A aterosclerose é um processo progressivo e multifatorial, que começa na infância e torna-se sintomático na meia-idade ou na velhice, mas pacientes jovens também podem manifestá-la. Suas causas são a predisposição genética, infecção e aumento de gordura.

Infarto do miocárdio ou ataque do coração: Ocorre quando parte do coração, por obstruções no fluxo sanguíneo das coronárias que irrigam o órgão, não recebe oxigênio em quantidade suficiente, causando a morte do músculo cardíaco, chamado miocárdio. A área atingida, então, fica necrosada. Os sintomas do infarto são dor no peito em pontada, aperto ou queima¬ção, sudorese fria, náusea, vômito e mal-estar. A pessoa nessa situação deve ser levada o mais rápido possível para um hospital.

Angina: Este termo, em latim, significa dor no peito, que é causada pela pouca irrigação de sangue no músculo do coração. Esse nome também é dado à dor que antecede o infarto, mas nem todas as dores no peito significam que o infarto está próximo. A dor suspeita é a que surge depois de esforços físicos, dura poucos minutos e depois vai embora.

Arritmia: É quando o coração apresenta batimentos cardíacos anormais.

Doenças valvares: São problemas em alguma das quatro válvulas do coração, que orientam o percurso do sangue no órgão, fazendo um movimento de abre e fecha a cada batimento.

Insuficiência coronariana: É um desequilíbrio entre a oferta e o consumo de oxigênio pelo músculo cardíaco, levando a graus variáveis de isquemia e podendo resultar em necrose celular, dependendo de sua duração e intensidade. Na maioria dos casos, a insuficiência coro¬nariana é causada por lesões ateroscleróticas que se desenvolvem nas paredes das artérias coronárias.

Endocardites: São afecções, infecciosas ou não, da camada interna do coração, o endocárdio. As endocar¬dites normalmente têm origem infecciosa e são causadas principalmente por bactérias, fungos, clamídias, entre outros.

Fonte: Sociedade Brasileira de Cardiologia

 


Stent faz parte das novas tecnologias

Sem prevenção, recorre-se à intervenção

Medicamentos, cirurgias, visitas regulares ao médico, controle dos fatores de risco são as principais formas de tratamento para quem possui uma cardiopatia ou já sofreu algum evento cardiovascular. Nos últimos anos, houve avanços em remédios para os cardiopatas, evitando, em muitos casos, a cirurgia.

Um medicamento que vem sendo bastante utilizado são as estatinas, que ajudam a baixar os níveis altos de colesterol e, apesar de agirem sozinhas, sua ação é melhorada quando acompanhadas de dieta, hábitos saudáveis e exercícios físicos. A aspirina, por ser anticoagulante, também é bastante recomendada como preventiva para os pacientes que já sofreram infarto, angina instável, acidente cerebral isquêmico ou isquêmicos transitórios atípicos.

Mas, quando o caso é mais grave e urgente, a saída é mesmo a cirurgia, hoje em estágio tecnológico bastante avançado. Dois conhecidos procedimentos são o marca-passo e a ponte de safena. O primeiro consiste numa bateria que libera impulsos, substituindo o nodo sinusal alterado – estrutura do coração que envia estímulos no tempo certo para a contração das aurículas e ventrículos. Já na cirurgia de ponte safena é construída uma conexão entre duas partes da veia safena, fazendo com que o sangue seja desviado do local obstruído, mas continue chegando do outro lado da mesma artéria.

Outro procedimento pelo qual muitos cardiopatas passam é a angioplastia, técnica que usa um cateter para levar um pequeno balão murcho até a artéria entupida pela aterosclerose, para ser inflado no local obstruído, expandindo as paredes. Em torno do balão também é levada uma minitela metálica, chamada stent, que permanece aberta na artéria depois da retirada do balão, garantindo a passagem do sangue. Hoje há a possibilidade de se usar stents impregnados com substâncias medicamentosas, que evitam a volta das placas de gordura. Mas, em se tratando de saúde, cada caso é único e só o médico está apto a apontar soluções.

 



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